segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Tradição Budista

Na tradição budista, temos a prática de respirar consciente, de caminhar consciente, para gerar a energia da plena consciência. E é precisamente com essa energia da plena consciência que podemos reconhecer, abraçar e transformar nossa raiva. A plena consciência é a energia que nos ajudar a sermos conscientes do que ocorre em nosso interior e ao nosso redor, e qualquer um pode ser consciente.

Se você bebe uma xícara de chá e sabe que está bebendo uma xícara de chá, isso é beber consciente. Quando você inspira e sabe que está inspirando, focalizando sua atenção na inspiração, isso é a plena consciência da respiração. Quando você dá um passo e fica consciente de que está dando um passo, isso é que se chama de caminhar em plena consciência.

A prática básica nos centros Zen, nos centros de meditação, é a prática de gerar a plena consciência em cada momento da vida diária. Quando estiver furioso, esteja consciente de que está furioso. Pois já terá a energia da plena consciência em si e isso bastará para reconhecer, abraçar, observar profundamente e compreender a natureza de seu sofrimento.

Thich Nhat Hanh

Meditar

"Muitas pessoas acreditam que meditar é silenciar a mente, evitar todo e qualquer pensamento, e assim se esforçam para não pensar. Quanto mais se esforçam, mais difícil fica a meditação verdadeira, o Samadhi profundo. Há muitas pessoas que desistem de meditar porque não conseguem passar a barreira sem barreira, o portal sem portas do Zen".

Monja Coen

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Por Todas Pessoas

A felicidade não é um acontecimento individual – sua natureza é a interconexão. Quando somos capazes de fazer um amigo sorrir, a felicidade dele vai nos nutrir também. Sempre que descobrimos os caminhos que levam à paz, alegria e felicidade, fazemos isso por todas as pessoas. Devemos começar nos alimentando de sentimentos alegres. Sairmos e praticarmos a meditação andando, desfrutando o ar puro, as árvores, as estrelas no céu à noite. O que fazemos para alimentar a nós mesmos? É importante discutirmos esse assunto com os amigos mais próximos a fim de descobrirmos meios concretos de nutrir a alegria e a felicidade.

Se formos bem-sucedidos nessa missão, nosso sofrimento, nossa tristeza e nossas formações mentais dolorosas começarão a se transformar. Quando o corpo é invadido por bactérias infecciosas, os anticorpos as aprisionam, tornando-as inofensivas. Se não houver anticorpos suficientes, o corpo cria outros tantos para neutralizar a infecção. De forma semelhante, quando inundamos o corpo e a mente com os sentimentos da alegria da meditação, corpo e espírito se fortalecem. Sentimentos alegres têm a capacidade de transformar a dor e a tristeza que estão em nós.

Thich Nhat Hanh: Ensinamentos sobre o Amor(Editora Sextante, Rio de Janeiro, 2005)

O Buda

"Buda pode ser considerado o mestre dos livres pensadores, não impondo seus ensinamentos, dando plena liberdade de deliberar sobre eles, podendo cada um julgar a seu modo, até encontrar a Verdade dentro de Si." 

Fonte: Budismo - A Psicologia do Auto Conhecimento - Editora Pensamento, pág 19.

Meditar não é Fugir

Meditar não é evitar problemas ou fugir das dificuldades. Nossa prática não consiste em fugir. Nossa prática consiste em adquirir bastante força para enfrentar, efetivamente, os problemas. Para isso, precisamos estar calmos, sólidos e viçosos. É por isso que precisamos praticar a arte do ponto final. Quando aprendemos a parar, ficamos mais calmos, e a nossa mente, mais lúcida, como as águas que ficam mais claras após terem se assentado as partículas de lama. Sentando tranquilamente, apenas inspirando e expirando, desenvolvemos força, concentração e lucidez. Portanto sentem-se como uma montanha. Nenhum vento pode derrubar uma montanha.

Thich Nhat Hanh - Vivendo em Paz

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Compassividade

Uma mente compassiva vê beleza e protege a vida naturalmente. Porém, a mente compassiva, que é a mente do bodhisatva, ainda tem dentro de si um paradoxo, ainda tem dentro de si um eu e tem dualidade. Porque existe o outro e ele tem compassividade pelo outro, ele ainda não tem uma mente completamente iluminada. Chama-se isto de iluminação com resíduos. 

 O pensamento de compaixão ainda é um pensamento onde existe o “eu estou aqui e eles estão lá”. O sentimento de compaixão é um sentimento que tem dentro de si naturalmente a dualidade. Então quando surge o fim da dualidade em que o eu se dissolve, não existe mais o caminho da virtude nem o caminho da compaixão, porque a não dualidade implica que não existe o eu e o outro, a dor dos outros é a minha dor. O sentimento de compaixão desaparece dentro de uma concepção de perfeita unidade.

Mesmo assim essa unidade não diz, eu sou a unidade. A unidade é vazia completamente de um eu, por isso o conceito de vazio torna-se tão importante no budismo. Porque, de que as coisas estão vazias? As coisas, todos os fenômenos, nós, somos vazios de um eu. Porque não existe eu algum, então, o vazio são esses próprios fenômenos. Se o vazio são os fenômenos, então os fenômenos são o próprio vazio. Por isso vocês todos são a vacuidade e a vacuidade somos todos nós e a miríade de todas as coisas. Por isso é necessário esquecer-se de si mesmo para ser iluminado pela miríade de todas as coisas. Essa é a essência do ensinamento Budista.

 Monge Genshô

A Meditação Zen

A meditação Zen tem como objetivo ir além da mente, isto é, além dos pensamentos, alcançar-se a consciência que tudo cria, que tudo observa, a nossa natureza original silenciosa, pacífica, intuitiva, a nossa realidade última.

A meditação Zen pretende relembrar o conhecimento intuitivo e absoluto, além dos esquemas mentais, e dissolver o ilusório "eu" ( que se acredita ser uma unidade isolada do Todo da existência ) dissolvendo-o no Universo experimentando um sentimento de unidade cósmica, paz e felicidade.

A mente inclui tudo

"Vai levar muito tempo até encontrares a tua mente calma e serena na meditação. Muitas sensações aparecem, muitos pensamentos e imagens surgem, mas são apenas ondas da tua própria mente. Nada vem do exterior da tua mente. Habitualmente pensamos que a nossa mente recebe impressões e experiências do exterior mas essa não é a verdadeira compreensão da nossa mente. A verdadeira compreensão é que a mente inclui tudo. Quando pensamos que alguma coisa vem do exterior significa apenas que algo surge na nossa mente. Nada fora de ti te pode perturbar. Tu próprio é que crias as ondas na tua mente. Se deixares a tua mente tal como é, ela tornar-se-á calma. Esta mente chama-se Grande Mente."

Shunryo Suzuki Roshi (1905-1971)

Há natureza búdica dentro de cada ser

Tathagatagarbha é a natureza búdica dentro de cada ser, mesmo que nós sejamos evanescentes, mutáveis, eternos, mesmo que cada parte nossa seja assim, essa onda cármica que nós somos tem uma natureza onírica. Ela parece profundamente real, mas é toda construída dentro da nossa consciência e na maneira como nós olhamos. O que seria realidade? Seria a visão das coisas tais como elas realmente são. Há outra palavra para isso: talidade, que significa as coisas tais como realmente são. Nós não vemos as coisas tais como elas são, nós vemos através de óculos, de distorções, de coisas que pensamos, de conceitos que temos sobre a vida. A iluminação é tirar os óculos e ver tudo com nitidez. Você vê tudo com nitidez quando retira os óculos das ilusões, essa é a mesma ideia de quando falamos que estamos dormindo e por isso a qualidade da nossa percepção é onírica, é de sonho, se eu retiro essa qualidade de sonho da minha visão eu desperto. É isso que significa a palavra Buda: aquele que despertou.
Fonte: Centro de Dharma Zen Palmas - Daissen-ji

Despertando

"É na quietude e na paz do silêncio que verdadeiramente despertamos. E é na quietude que abrimos a mente..."

Cristina Pujol

A Iluminação

A iluminação está disponível, o que acontece é que nós não conseguimos agarrá-la, porque nós não estamos preparados para isto e, se a pessoa tiver a mente muito conturbada, ela não consegue nem ver o passarinho, e se vir o passarinho joga pedra nele. É uma questão de mente, não consegue ver nada, está perdido completamente. Mas uma pessoa razoavelmente normal, ela tem algumas experiências muito lindas, só que  não consegue mantê-las. Não consegue segurar aquilo e não pode decidir ter, não pode dizer assim: “agora vou me desligar de tudo e mergulhar numa experiência”. Essa habilidade de poder mergulhar na iluminação a qualquer momento, nós chamamos de “Satori”, e essa é dificílima, porque exige uma condição mental em que você acha e vê a sua vida a cada momento, como perfeita, em que a noção de um eu foi inteiramente esquecida. 

Monge Genshô

Por que temos dificuldades com a morte?

Aluno – Eu gostaria que o senhor falasse sobre o nirvana...
Monge - Ir para o nirvana significa não se manifestar novamente, extinguir o carma, mas isso é raríssimo. Normalmente o que acontece é que a gente tem muitos resíduos de carma,  até mesmo vontade de ajudar outras pessoas, e então você retorna. Porque tem esse sentimento, esse sentimento faz você retornar.
que na verdade, olhando profundamente, não existe uma coisa tal como 'outras pessoas'. Todas as outras pessoas são eixo de redemoinho, todos eles mera construção, ilusão, não existe isso, até parece que existem outras pessoas, mas é uma ilusão fortíssima, não é ilusão, é delusão, eu olho aqui e vejo cada um e cada um me parece sólido, real. Vocês também têm a mesma sensação. Como a gente se dá conta de que na verdade são redemoinhos, movimento cármico e que irão se extinguir? Por isso é que a gente tem tanta dificuldade com a morte.

Que bom que esquecemos do passado


Nosso problema não é o registro do passado, mas o acesso a ele. Como acessar? Seria impossível para nós vivermos, se nós rememorássemos toda a nossa vida em seus mínimos detalhes e por isso o esquecimento é necessário. Há um conto de Jorge Luis Borges, no livro Ficções, que chama-se Funes, o memorioso. Funes é um indivíduo que lembra cada mínimo detalhe de tudo que aconteceu em sua vida. Cada árvore, cada posição de pés das pessoas, cada palavra dita, cada expressão, tudo. E tudo está presente na mente dele em todos os momentos, então Funes tem que se isolar num quarto escuro e a cabeça dele não para, porque tudo está presente a todo momento. Parece zazen, não é? Então, o esquecimento na verdade é uma benção, é bom que o tenhamos . Todos nós já fomos covardes, abjetos, mentirosos, desonestos, em algum momento. Que bom que esquecemos para podermos viver novamente.